Infraestrutura deficiente ainda marca 85% das rodovias brasileiras



Pesquisa mostra que pistas simples, falta de acostamento e pontos críticos ainda desafiam a segurança viária; especialista defende que reduzir acidentes também passa por investimentos na infraestrutura

Quando um acidente de trânsito acontece, quase sempre a primeira reação é procurar o erro do motorista. E, de fato, os números justificam esse olhar. Segundo o Anuário Estatístico da Polícia Rodoviária Federal (PRF), 84,1% dos acidentes registrados nas rodovias federais em 2025 e 91,5% das mortes tiveram relação com o comportamento do condutor. Os dados reforçam que atitudes como excesso de velocidade, ultrapassagens indevidas, distração ao volante e desrespeito às normas continuam sendo as principais causas de acidentes no país. 

Mas até que ponto a segurança nas estradas depende apenas do motorista? “Embora o fator humano seja determinante, a infraestrutura das rodovias também exerce influência direta no risco de acidentes e, principalmente, na gravidade de suas consequências", constata o advogado na área de trânsito, Walber Pydd. 

O debate ganha força diante dos dados da Pesquisa CNT de Rodovias 2025, da Confederação Nacional do Transporte (CNT), considerada o maior levantamento sobre infraestrutura rodoviária do país. O estudo avaliou 114.197 quilômetros de rodovias federais pavimentadas e os principais trechos estaduais e constatou que apenas 37,9% da extensão pesquisada foi classificada como ótima ou boa, enquanto 43% receberam avaliação regular e 19,1% foram considerados ruins ou péssimos. 

Os desafios ficam ainda mais evidentes quando se observa o desenho das estradas brasileiras. Segundo a CNT, 85,2% das rodovias avaliadas ainda são pistas simples, 45,8% não possuem acostamento e 29% dos trechos com curvas perigosas não contam com sinalização adequada. A pesquisa também identificou 2.146 pontos críticos distribuídos pelo país, entre grandes buracos, erosões, quedas de barreira, pontes estreitas e outros obstáculos capazes de comprometer a segurança dos usuários. Embora esse número represente redução de 12,3% em relação ao levantamento anterior, a própria CNT destaca que essas ocorrências continuam oferecendo riscos importantes ao tráfego. 

Para Walber Pydd, é preciso ampliar o debate sobre segurança viária. "É evidente que a imprudência continua sendo a principal causa dos acidentes e isso nunca pode ser relativizado. Mas também precisamos olhar para as condições das rodovias. Uma pista simples, sem acostamento, com pavimento desgastado ou sinalização deficiente reduz a margem de segurança do motorista. Quando a infraestrutura não acompanha o crescimento da frota e do fluxo de veículos, qualquer erro pode ter consequências muito mais graves."

Trechos conhecidos nacionalmente ilustram essa realidade. A BR-376, na Serra entre Paraná e Santa Catarina, por exemplo, permanece registrando acidentes graves ano após ano. O intenso fluxo de caminhões, aliado ao relevo acidentado, às curvas e às condições climáticas frequentes da região, faz com que o trecho seja constantemente citado quando se discute segurança nas rodovias brasileiras.

Segundo o especialista, investir em infraestrutura não significa apenas construir novas rodovias ou promover duplicações. "Melhorar a segurança passa também por manutenção constante do pavimento, sinalização eficiente, implantação de terceiras faixas, acostamentos, correção de curvas e melhor iluminação. São medidas que aumentam a capacidade de reação do motorista e diminuem significativamente o potencial de um acidente se transformar em uma tragédia."

Os impactos da infraestrutura precária também são econômicos. De acordo com a Pesquisa CNT de Rodovias 2025, as condições atuais do pavimento elevam em 31,2% o custo operacional do transporte, exigiriam investimentos de aproximadamente R$ 101,1 bilhões para recuperação da malha rodoviária nacional e provocam o desperdício estimado de 1,2 bilhão de litros de diesel por ano, aumentando os custos logísticos e as emissões de gases de efeito estufa. 

"Não existe solução única para reduzir acidentes. Educação, fiscalização e punição para quem infringe a lei continuam sendo fundamentais. Mas investir na qualidade das rodovias também salva vidas. Quanto mais segura for a infraestrutura, menores são as chances de que um erro humano termine em uma fatalidade", finaliza.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

𝗔𝘁𝗹𝗲𝘁𝗮 autista 𝘁𝗿𝗮𝘇 𝗼𝘂𝗿𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗖𝘂𝗿𝗶𝘁𝗶𝗯𝗮 𝗻𝗼 𝗖𝗮𝗺𝗽𝗲𝗼𝗻𝗮𝘁𝗼 𝗣𝗮𝗿𝗮𝗻𝗮𝗲𝗻𝘀𝗲 𝗱𝗲 𝗞𝗮𝗿𝗮𝘁ê

Com 98 indicadores, IGMA 2026 evolui e amplia leitura sobre gestão municipal no Brasil

Conta Cheia capta R$ 50 milhões e acelera expansão do crédito consignado privado no Brasil